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NO INTERNATO DO SEMINÁRIO ERA ASSIM

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Sonhava que ia a caminho do inferno ou do purgatório, anunciados com metáforas terríveis nos sermões diários das missas de todos os dias – mais contundentes nos domingos e dias santificados – pelo mais coroado e rotundo dos padres do colégio. Na alma, o desespero infinito, porque não estava em “estado de graça”. Em menino, um estado muito difícil de ser conservado. Cometera pecadilhos, sem contar com o perdão da confissão, das indulgências parciais ou plenárias. E acordava a suar frio, mas aliviado. Afinal, não morrera e ainda havia tempo para se arrepender e se emendar.

Refeito do susto, fazia o propósito – nunca cumprido, é certo – de mudar de vida. Na sua mente infantil espalharam milhões de capetas, a cercá-lo, tentando-o a cometer faltas por “palavras, pensamentos e atos”. De nada adiantavam, contudo, os castigos, as penitências e ameaças; surgida a ocasião, lá vinha a repetição do crime, surgido das mesmas circunstâncias e consequências anteriores. Eram tantas as ocasiões de pecar, tão graves as faltas, que se via perdido, irrecuperável. Pensava em desistir de salvar-se, por julgar-se fraco demais. O pecado e o erro são divertidos e tentadores; o caminho da santidade, todo povoado de espinhos, sacrifícios, dificuldades. Além do mais, era só pedir perdão, com a vontade firme de não mais cair em tentação, para voltar ao “estado de graça”. – “Peco agora, que não aguento, depois me arrependo e peço perdão no confessionário. É para isto que lá está o bondoso padre Luís. É só demonstrar desejo sincero de não mais ceder ao mal”. Não queria pensar maus pensamentos. Mas não havia jeito. Por mais que fizesse lá vinham eles, envolvendo-o. Procurava concentrar-se em assuntos de estudo ou lembrar-se de outras coisas. Mas não conseguia. Sentia-se desgraçado, perdido. E se via nas profundezas do fogo eterno, a queimar no inferno.

E que deus vingativo, cheio de picuinhas, pintaram-lhe na infância, já tão cheia de outras privações e angústias. Era um deusinho. Faziam mais fé no demônio, tamanho era o poder que lhe davam. O inferno em labaredas eternas; as acusações contra as fraquezas da carne, sempre lembradas e cobradas na confissão; a pequenez do menino, sua fragilidade frente ao mal; a existência de inúmeras ocasiões de pecar, tudo o atormentava. E para todo mal, o remédio mais amargo: penitências e suplícios – pedras na cama; ajoelhar-se sobre grãos de milho, rezar e rezar. Flagelos e flagelos. Assim tratado, não é de se estranhar que só a inocência o fazia temer o inferno. Com o tempo, veio-lhe a descrença. Não podia crer no deus que lhe pintavam, pois não há sinceridade no crer por temor, num deus minúsculo. Nem pode Deus ser tão mau. A falsa compunção, a hipocrisia frente a Deus, que tudo sabe – pensava – não adiantam nada. Para não enganar a si mesmo, deixou de comungar e confessar, porque mesmo confessando não se achava digno de receber a comunhão, pelos questionamentos que fazia de todos aqueles atos exteriores, no seu íntimo, pelas dúvidas persistentes que o torturavam.

Não o ensinaram a amar a Deus. Queriam que o temesse, mas não conseguiu concebê-lo raivoso, irado. Deram-lhe erradamente a lição de catecismo. Até descobri-Lo, nas dobras do tempo, quantos pesadelos e angústias! Com isso, trouxeram-lhe, ao invés da paz que a crença pressupõe, a insegurança e o medo atroz de seiscentos milhões de diabos.

E tome penitência: rezas, terços, ave-marias, credo, salve-rainhas e outras mais, repetidas por obrigação, sem consciência, mecanicamente; jejum, abstinência disso ou daquilo; e doses maciças de inferno a todo o momento. Angústia e medo o assaltavam de instante a instante. Tornou-se inseguro e temeroso.

Ao levantarem-se, antes mesmo de lavar o rosto alguns padre-nossos ao pé da cama. A seguir, a missa, com as tripas a roncar. ER tome latim: “In nomini Patri… ora pro nobis… Dominus Tecum”. E a barriga falando alto a voz da fome, provocando risos e reprimendas. Ansiava-se pelo “Ite missa est”. Quando celebrada pelo padre Toninho, o café saía mais cedo. Em trinta minutos celebrava, rezando em latim, dizia sermão breve, em jatos, em torrentes. A não ser que o padre superior estivesse presente. Aí, então, segurava, mas mesmo assim era mais rápido que qualquer outro. Era o preferido de todos. Torcíamos para que chegassem as terças e quintas-feiras, nas quais lhe cabia a obrigação de celebrá-las. Eventualmente substituía-o outro padre, que adoecera. Agradável surpresa. Mas que agonia, que não tinha fim, quando o padre mais velho cismava de celebrar sua missa! Totalmente decrépito: surdo, um pouco gago, muito débil e falava baixo. Monologava e cochilava, de momento a momento. Quem o ajudava se perdia, pois não era claro nem audível seu latim.

Acabada a missa, uma fila enorme buscava o refeitório, para a canjica de todos os dias, que aos domingos e dias santos vinha com leite. Certo dia, o glutão que limpava os pratos dos outros, estava a oferecer sua parte. Desconfiou, mas já comera a metade. Daí a pouco a verdade: uma perereca viera, dividida em vários pedaços, em pratos diversos… Esta crônica continua na próxima semana.

Marcos Evangelista Alves –  O Gabiroba

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