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NO INTERNATO DO SEMINÁRIO ERA ASSIM (continuação)

 

Amigos, semana passada parei na parte em que havíamos ingerido pedaços de perereca na sopa de canjica que comíamos todos os dias e que aos domingos esta era servida com leite, lembram?

Pois é, continuando esta estória que foi verdadeira dou prosseguimento à mesma: Antes de mastigar qualquer alimento, uma breve reza. Depois de engolir, mais rezas. Enfim, antes ou depois de qualquer atividade, seja o banho diário, o estudo, o recreio, o futebol, o trabalho, breve ou longa, lá vinha uma reza. Trazia calejados os joelhos e a alma. Os gestos lhe saíam automaticamente, assim como as palavras da boca. Mas há, entre aqueles ritos e ladainhas, alguma coisa que lhe ficou na memória e na vida: as parábolas e as expressões “naquele tempo” e “em verdade, em verdade, vos digo”, que achava belas e impressionavam sempre. Nisso, a vitória da poesia do Evangelho sobre o cerimonial que não lhe dizia nada, cansando-o apenas.

Qualquer falta observada pelo bedel e lá se ia o recreio, a sobremesa do domingo, o passeio de quinta-feira – oásis, naquele presídio do corpo e do espírito. E ele, que não pagava nada, que estava ali de favor, obrigado a demonstrar interesse, piedade, disciplina e submissão. O bedel lembrava-lhe essa condição com gestos, atitudes e olhares. Dispensava palavras para a reprimenda.

Nas férias, ocasionalmente, não era buscado para passá-la em casa. Tinha que trabalhar, servir e se multiplicar, suprindo a falta dos que se ausentavam. Reza e estudo; reza, trabalho; reza, alimento; reza, higiene; reza, repouso; reza e reza. Ocupavam lhe o tempo, minuto a minuto. Periodicamente, lá vinham os retiros espirituais de dois ou três dias, dedicados à reza e ao jejum, limitando-se outras atividades às indispensáveis à vida.

Geralmente havia rodízio de tarefas. Num mês, a faxina; noutro, a horta ou o pomar, a plantação de árvores, o preparo de mudas; noutro a arrumação dos quartos ou o atendimento no refeitório dos superiores – privilégio de poucos, porque as sobras de comida eram soberbas e fartas, além da boa qualidade. E as sobremesas?!!! A única vantagem das férias era esta tarefa, que na falta dos titulares era exercida pela pobreza que ficava. Até a alegria vinha precedida de trabalho, formalidades e mesuras. Davam-lhe prazer as atividades na horta e no pomar, já pelo contato com as plantas, já pela colheita eventual dos frutos maduros, comidos às escondidas. Daí só lhe ficava o remorso do furto e o propósito de confessar o crime na próxima oportunidade. O contato com a terra, com a água, eram outras alegrias do menino, a despeito do medo de cobras. Mas as festas mesmo se davam nas quintas-feiras. Neste dia da semana não se pegava em livros e em ferramentas, a não ser que fosse véspera de provas finais ou se chovesse. Era dedicado a passeios pelo campo; banho em poços distantes, nos regatos de água límpida, cristalina, a correr sobre lajes e pedras; o rango feito pelos próprios alunos, alguns com boa experiência de outros anos, sobre trempes de pedras, improvisadamente, às margens dos riachos; a cata de frutas silvestres; a ida ao pomar da antiga sede da missão da irmandade, distante alguns quilômetros, com rica variedade de frutos; a doce e provisória liberdade, subordinada apenas aos olhos dos bedéis, que eram, afinal, poucos para vigiar tantos peraltas e, também eles ocupados com seus divertimentos, fazendo vista grossa o mais das vezes. Buscávamos gabirobas, araticuns, araçás, mama-cadelas, mangabas, cajus, pequis e outras frutas silvestres. Ou, quando nos destinávamos a ir à antiga sede da missão religiosa, as frutas da estação do ano. Nesses dias fartávamos do sol, do ar, da vida e de cansaço. Felizes, ao retornarmos ao internato, pedíamos apenas banho, janta e cama, porque o corpo estava moído e a alma revigorada, prontos para outra semana de intensas atividades.

Aquele ano vivido no internato acentuou-nos o amor à natureza, à terra – à força viva das coisas, que brotam, crescem, dão frutos, nesse ciclo interminável, eterno e, por isso mesmo, belíssimo. Ao espírito trouxe-nos inquietações, temores e perguntas não respondidas, que, com o tempo, trouxeram–nos a descrença. Muitos anos após, evoluíram para a fé fracionada, consciente.

Para afastarmos do terror do inferno, metiam-nos medo com um deus cruel, pavoroso e vingativo. Um escorregão, por menor que fosse, era o bastante para atirá-lo nas profundezas do suplício eterno.

Todo esse terror de passagens tenebrosas só nos fez afastar, mais tarde, daquela religião. Quando, já maduros, percebeu-se que o diabo era-nos caricaturado pior do que lhe parecia possível e que até nem existisse. Além disso, que deus é esse que cria seres destinados ao sofrimento eterno?

Acalentou em seu íntimo a esperança e a busca de um Deus todo Amor, um Deus Pai, de Misericórdia, paciente e que dá a seus filhos infinitas oportunidades de encontrá-Lo dentro de si mesmos. Um Deus que nunca está longe. Para encontrá-Lo basta, tão somente, uma pequena viagem dentro de si mesmo e, nessa viagem interminável recomendada por Sócrates na expressão milenar do “Conheça-te a ti mesmo”, verás que Ele é verdadeiro. Um Deus Uno, Trino e Onipotente que teve a coragem de nos enviar o seu único Filho, Jesus, o nosso inteiro Salvador que, na Unidade do Espírito Santo vive e Reina para Sempre. Quem teve ou tem hoje em dia a coragem de iniciar essa viagem interior não para nunca mais. Graças a Deus e ao Internato do Seminário de Ontem!

Marcos Evangelista Alves – O Gabiroba

Por Itafatos

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