Home / Colunistas / O Barulho da Mina

O Barulho da Mina

download (2)O barulho da Mina sempre esteve presente nos ouvidos da gente
de Itabira, principalmente nos meus, pois a Mina está dentro da cidade,
a cidade está dentro da Mina, o barulho da Mina está também dentro de
mim, insistentemente, dentro de cada um de nós. Quando menino, era
prazeroso o passeio na Mina. Era bom estar ali, em meio a todo aquele
barulho.
Nas proximidades do Natal, subíamos o Cauê para catar musgos,
orquídeas e pedras de esmeril, para construir a lapinha dos presépios. O
silêncio da montanha realçava o barulho que vinha da Mina. Sentíamos
como anjos nas alturas, acima dos montes, das nuvens e dos vales acima
da Mina. E lá de cima, ouvindo o barulho, esquecíamos da vida dura
do vale. Vida difícil, competitiva, agitada, quando eu e também outros
meninos buscávamos na boca da mina uma ajuda para a sobrevivência
familiar. E gritávamos, muito, e bem alto: “Olha aiê o pastel, olha aiê o
doce de Dona Corina”… O barulho da Mina abafava nosso grito, mas o
dinheiro comparecia e resistíamos até voltarmos para casa com os balaios
vazios e nós, meninos, felizes, dinheiro no bolso e cabeça quente de tanto
barulho. Quando vamos voltar? Talvez hoje, talvez amanhã… Talvez a
nossa mãe perca o horário do caminhão de boia e lá vamos nós, de volta
pra Mina, levar a marmita de nosso Pai. Meu Deus! Como não ficar surdo
em meio a tanto barulho?
download (4)Às vezes se ouvia um grito solitário de um homem lá no alto
da serra, anunciando, aos berros, o perigo do momento da detonação.
Fogo… Fogo, pessoal! A voz era conhecida e bem familiar. Era ele, o
nosso Pai, responsável direto pela carga de fogo e segurança da detonação
da mineradora. E de repente, uma nuvem de poeira. Pedras rolando
para todos os lados. Muito barulho? Pois eu gosto! Durante vinte e seis
anos de minha vida, convivi com o barulho da sirene anunciando o início
dos turnos, o horário do almoço e do término do expediente. Convivi em
intimidade com o barulho das perfuratrizes, dos tratores, das gigantescas
escavadeiras, dos motores em manutenção nas oficinas. Das casas
de peneiras, das correias que transportam o minério do alto da serra, dos
caminhões, dos britadores quebrando o minério e dos compressores de
ar, do apito do trem chegando vazio e saindo carregado com a produção
para além mares. Também se ouvia o barulho da Mina, no estádio Israel
Pinheiro, quando o nosso Valério jogava, ou, nas tardes de verão, quando
nos deliciávamos nas águas turvas de pó de minério, na piscina do clube,
ou mesmo durante os bailes e matinês, da sedinha do Explosivo e do
Campestre, ou ainda também no distante bosque dos Escoteiros, em dias
de acampamento, na chácara do Zé Sérgio, ou até mesmo nos caminhos
da Fazenda do Pontal, Serra dos Doze Vinténs, tantos outros…
download (1)O barulho da Mina também perturbava o interior da Matriz do
Rosário, Igrejinha do Campestre, em momento de rezas e homilias, até
o silêncio das procissões, as ruas e becos da cidade. Nas salas de aula do
Emílio Pereira, da Escola Estadual Mestre Zeca Amâncio, também nos
momentos de dor se ouvia o barulho, nas longas noites que passávamos
nos quartos do Hospital Carlos Chagas ou Nossa Senhora das Dores, até
mesmo no Cemitério do Cruzeiro. Em meio a soluços, o barulho da Mina
parecia chorar ao ver os corpos dos nossos queridos descerem à sepultura.
Quanto barulho gravado em minha memória.
Mas, um dia, a Mina calou. Nenhum barulho. A crise chegou à
Mina. Fiquei assustado! Não mais se ouvia tanto barulho, aquele som que
me confundia. Seria bom ou ruim? Certo é que às vezes me incomodava,
outras vezes me soava como uma canção de ninar…
Numa daquelas noites não conseguia dormir. Fui à janela buscar
o barulho da Mina. Só silêncio! Pensei nos mineiros demitidos, em suas
famílias afetadas por uma crise sem explicação. Só se via uma nuvem de
um branco sobrenatural cobrindo a rua, a cidade, a mina. Meus ouvidos,
inconformados, buscaram com esforço algum som. Até perguntei para
a minha esposa: que silêncio triste é este, que tanto incomoda a minha
alma? Percebe o barulho da mina? Não percebo barulho algum, respondeu-
me ela.
Senti naquele momento um frio que me veio do fundo da alma. No
silêncio daquela noite, clamei a Deus: Senhor Jesus, tenha misericórdia
dos homens e mulheres da mina.
Dias depois voltei a ser feliz, pois voltou o barulho na mina!
 
Marconi Ferreira.
Livro Viagem na história de Itabira, com o menino d a mina.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Scroll To Top