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REMINICÊNCIAS

 

download (4)O cronista tem momentos. Momentos filosóficos, herméticos, românticos, poéticos e o momento do saudosismo. E deixa o íntimo transbordar num diálogo consigo mesmo, conversando com as próprias ideias. Às vezes, percebe-se sábio que nada sabe, descobre-se lírico nos acontecimentos triviais. Eis-me a divagar em meus momentos: Em 1950, no banco da grande varanda que circundava o escritório da antiga Fábrica de Tecidos da Gabiroba, lá estava ela assentada, às vezes fazendo crochê, na maioria das vezes cochilando, pois sua idade já era bastante avançada, isto, depois de trabalhar anos e anos na fábrica e se aposentara. Como não possuía nenhum parente, pois todos já haviam partido para a eternidade, Dr. Demerval, dona Ninita, meus padrinhos de batismo, assumiram o dever de cuidar da antiga operária, dando-lhe todos os cuidados que uma anciã necessitava, inclusive, moradia e alimentação. Todos do meu tempo a conhecia como Sá Porcina. Pintávamos com ela e ela em sua mansidão, tratava-nos com muito carinho, mesmo quando se irritava. Quantas vezes quando cochilava, maldosamente tomávamos o novelo de linha em que crochetava e desmanchávamos mais da metade do que já havia produzido. Quando acordava e ao perceber que havíamos destruído o que fizera, xingava-nos com palavras que ninguém entendia e, pacientemente enrolava o novelo de linha e reconstruía a peça novamente. De vez em quando descia as escadarias que separavam a varanda ao grande pátio, por conseguinte, o grande salão de refeição dos operários e a casa de morada das operárias que exerciam suas funções de tecelãs, fiandeiras e outras atividades na fábrica, e, caminhando vagarosamente ia até o armazém para fazer pequenas compras. Com a mudança de Dr. Demerval e dona Ninita para Belo Horizonte, sr. Abel Camilo e sr. Afonso e respectivas famílias assumiram a tutela de Sá Porcina, até esta vir a falecer, anos depois. Fazia com perfeição, forros de mesa, cachecóis e várias peças de tricô que a todos encantavam. Quando tricotava ou fazia crochê, de vez em quando afastava os olhos dos dedos ágeis, para melhor enxergar, balançando serenamente a cabeça e prosseguia no seu exercício de viver. O olhar era só ternura, debaixo dos óculos redondinhos. O cabelo já bastante embranquecido de muitos anos e o rosto, cheio de rugas do tempo demonstrava que estava preparada para o porvir. Transpirava um perfume trazendo consigo a limpeza e o cuidado com o seu corpo. De vez em quando perguntávamos: – quantos anos a senhora tem? – “Sou de 1865”, dizia ela, como se alisasse o crochê, ou o tricô de sua vida. E, sorrindo completava: “muito tempo, não é”? Assim, como se fossem pontos, ela entrelaçou os próprios dias e tecendo, se teceu com os fios de vida que decerto foi mais longo que ela própria imaginou. Ela sorria para si mesma, lembrando instantes-pontos de sabe lá que tempos já vividos. Hoje em dia quando sou levado à lembrança, vendo-a sorrindo ou suspirando seus silêncios, me fixo nos novelos de linha ou de lã entre seus pés, de onde a linha escapava sem cessar, enquanto ela se embalava e tecia. Nos instantes-pontos ela se ia de sorrisos e suspiros enquanto os novelos chegavam ao fim.

Ali, no embalar-se na confecção do crochê ou do tricô, por certo lhe vinha à mente os dias de quando menina, tão longínquo, advinda de um lugar que ninguém jamais ousou lhe perguntar: onde tinha nascido, quem eram seus pais, se possuía irmãos, parentes próximos, tão somente sabíamos que teria sido uma das primeiras tecelãs que doara sua vida à fábrica de tecidos e, com certeza havia ensinado muitas outras jovens a aprender o ofício, sequer sabendo se ainda existia alguma companheira de seu tempo gozando da plenitude da vida. Se fora casada, se possuiu filhos, netos; ninguém ousava afirmar.

Sá Porcina entendia de crochê, de tricô e da arte de viver. Certa tarde, após o almoço, como fazia todos os dias, lá estava ela sentada no banco, linha enrolada nos dedos, agulha na mão direita, entrelaçada no ponto da confecção que se estendia por mais de metro. Já estávamos no Advento daquele ano, Sá Porcina, sentada, cabeça abaixada, cochilava. Só que o cochilo foi definitivo. Havia partido para a eternidade fazendo o que mais gostava, rezando com as linhas do crochê e da agulha que a ajudaram a sorrir, não mais para nós que a amávamos, mas para os entes queridos da eternidade.

Amigos, estamos no fim do mês de novembro… dezembro é próximo… É período do Advento, da Espera e preparação para a Mudança! Mudança com envolvimento e comprometimento, pois se aproxima o final de mais um ano. Tempo de muito cansaço, mas também de muita esperança! É preciso ter coragem para fecharmos um ano e programarmos o outro que bate à porta. Precisamos ter segurança e agir de maneira organizada, com a visão voltada também para o futuro, para o novo, para o desconhecido!

Inicia-se neste domingo o Tempo do Advento, tempo de expectativa e espera daquele que virá. Espera essa que não significa comodismo ou estagnação, pois se trata de uma preparação e de um “limpar nossa casa interior” para que aquele que em breve chegará possa encontrar tudo no lugar. E, embora saibamos que liturgicamente o Menino Deus chegará na noite do dia 24 de dezembro, não deixemos de estar atentos, pois pode ser que Ele se apresse e não queira esperar tanto, chegando de repente e a qualquer momento. A palavra Advento significa “aquele que há de vir”. É tempo, portanto, de expectativa, de preparar os caminhos para Aquele que vem trazendo consigo a promessa de um mundo novo. Disso já nos adverte o Evangelho: Vigiai, pois não sabeis quando será o momento. Que esse Deus humilde, pobre e simples possa nos encontrar prontos para recebê-Lo e que possamos ofertar-Lhe a nobreza de nosso coração e de nossa vida. “Ficai, pois de sobreaviso, orai e vigiai”.

Clarice Lispector, em um de seus vários poemas deixou gravada para nossa meditação: “Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade”. Pense nisso, pois já estamos no Advento. A espera é tão importante quanto o recomeçar.

Marcos Evangelista Alves – O Gabiroba

Por Itafatos

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