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Fundação Cultural realiza compra histórica, adquire acervo inédito de cartas de Drummond e primeira edição do primeiro livro do poeta

A escritora Luiza de Maria, em seu livro “Drummond – Um olhar amoroso”, diz para o leitor do poeta que, “se ainda não se aventurou nessa viagem, não espere mais. Tome posse do legado e de sua parte da herança que Drummond nos deixou. É um direito seu. Comece já! Eu não tenho qualquer dúvida. Diante da pergunta: ‘quando ler Drummond?’ respondo prontamente: a vida inteira. Mas um espírito galhofeiro se apressaria a dizer: a vida inteira… será tempo suficiente?!”

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Foi com esse sentimento que o empresário mineiro, Eduardo Cicareli, adquiriu o lote com 212 documentos históricos ligados ao poeta Carlos Drummond de Andrade. Isso foi na década de 1990 e a primeira vez que ele mostrou seu acervo em público, quando da data de 10 anos de morte do poeta, a comoção nacional o surpreendeu. O acervo documental, que contém – entre outras coisas – cartas e fotografias do poeta, foram temas das reportagens de capa de publicações importantes como os jornais Estado de Minas, O Globo, Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo.

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A Prefeitura Municipal de Itabira, por meio da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), acaba de adquirir essa preciosa relíquia. Avaliado em R$21.000,00 (vinte e um mil reais), esse rico acervo é formado por cartas com conteúdos inéditos destinados à mãe, tios, irmãos e sobrinhos, fotos raras com dedicatórias e documentos como escrituras da família Andrade. Muitas dessas cartas, com o timbre do Ministério da Educação e Saúde – Drummond foi funcionário público por mais de 40 anos e em meio à sua carreira burocrática foi nomeado, em 1934,  chefe de gabinete do Ministério de Educação e Saúde Pública.  

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O superintendente da FCCDA, Marconi Drummond, explica que o Prefeito Damon Lázaro de Sena, ao saber da existência desse acervo, pediu total empenho para a vinda desses documentos para Itabira. “É um marco histórico, porque essas cartas falam muito de Itabira, também. O tempo todo o escritor se dirige a sua cidade natal. As cartas,datadas de 1940, por exemplo, falam muito da chegada da Vale e já demonstravam a preocupação do poeta com a degradação da paisagem da cidade.”

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Na última segunda-feira (28), Marconi Drummond esteve na cidade de Lavras para receber o acervo das mãos de Eduardo Cicareli que destacou a necessidade dele estar – agora – sob a guarda de uma instituição pública. “Este é um material riquíssimo para pesquisadores e estudiosos da obra de Drummond e da literatura brasileira. Já recebi propostas para que fosse leiloado em Londres, mas elas precisavam ir para uma instituição pública para ficarem disponíveis”, explica.

 Além deste acervo, a Fundação Cultural também adquiriu outro item raro: a primeira edição do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, “Alguma Poesia”. Marconi Drummond reforça que “trata-se de um exemplar raro porque foram impressos apenas 500, num selo fictício (Pindorama) e custeado por amigos do poeta. Mas, além disso, ele foi autografado pelo escritor, com uma dedicatória para um itabirano (Antônio Camilo de Faria Alvim) e com correções de próprio punho de algumas palavras que foram impressas de forma equivocada. Assim, Drummond deixou algumas marcas de correção e revisão. Esse exemplar vem preencher uma lacuna do acervo bibliográficoque está sob a guarda do Memorial Carlos Drummond de Andrade.

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Cartas, fotografias e documentos

Essa coleção de cartas foi guardada por Dona Julieta Augusta, mãe de Drummond, até seus últimos dias de vida, quando a deu de presente para a nora (esposa de Flaviano) Dona Ita. Anos depois Dona Ita precisou se desfazer de parte de seu tesouro familiar.

 

As cartas, escritas entre 1925 e 1948, revelam um conteúdo cheio de carinho dedicado, principalmente, à mãe. Segundo o escritor e crítico literário Silviano Santiago, “é uma das coisas mais importantes do país em termos de correspondência, já que a relação com a mãe sempre foi uma incógnita na obra do poeta.

 Marconi Drummond conta que as cartas têm um tom muito íntimo e familiar. “Elas revelam um Drummond muito respeitoso com a mãe, dedicado a coletar informações sobre a família, os irmãos, a fazenda e a vida itabirana. Um homem que discorre sobre temas cotidianos, como o anúncio do próprio noivado. Ou sobre notícias tristes, como a morte do filho que viveu apenas meia hora.”

 “Alguma Poesia”

Esse é o primeiro livro de poesias de Drummond. Ele é um marco da Segunda Fase do Modernismo e apresenta aos leitores um Carlos Drummond de Andrade jovem (28 anos). O autor chegou a pensar em desistir do livro, mas o amigo Mário de Andrade lhe escreveu dizendo que ele não teria esse direito. “Seria uma covardia. Você não tem o direito de rasgar o que já não é mais só seu, que você mostrou para os amigos e eles gostaram. Eu quero uma cópia de todos os seus versos para mim. Eu quero e exijo, é claro.”

 Importância cultural e histórica

Tanto a coleção de cartas e documentos, quando o livro “Alguma Poesia” serão inseridos no acervo do Memorial Carlos Drummond de Andrade. “O Memorial foi criado com este objetivo. Para guardar, difundir e gerar pesquisas. Com a chegada desses documentos, entendo que há um fortalecimento enorme da instituição”, explica Marconi Drummond. “É importante dizer que nosso acervo nos insere, definitivamente, num circuito de instituições que se dedicam a memória e ao estudo da literatura brasileira e a língua portuguesa.”

Para o município essa é a recuperação e a revelação de um tesouro muito expressivo. Marconi completa exaltando que esse é um momento em que Itabira é assinalada “como uma cidade conectada com a história, com a cultura e se movimentando para salvaguardar acervos históricos, culturais e artísticos. Temos essa vocação e estamos tentando colocar a cidade de novo no trilho. Portanto, a chegada desse acervo é emblemática”, conclui.

 Solenidade

No dia 31 de outubro (quinta-feira), data em que Carlos Drummond de Andrade completaria 111 anos, às 18h, a Fundação Cultural realiza uma grande solenidade para realizar a entrega oficial dos documentos do acervo e da primeira edição de “Alguma Poesia” para a comunidade itabirana.

 Na ocasião, acontece ainda o encerramento da 12ª Semana Drummondiana, com o lançamento do livro “A máquina do poeta”, do premiado ilustrador Nelson Cruz, e a mesa redonda “COMETANDO Drummond” com os integrantes do jornal itabirano “O Cometa”.

 

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